
Filme: Gran Torino
Actor: Clint Eastwoodpor Sara Antunes Santos (Escritora Convidada)
Desta vez não me vou esquecer da banda sonora e é mesmo por aí que vou começar.
A magnífica interpretação de Jamie Cullum na música que também é o nome do filme que destaca a personagem de hoje é Gran Torino. É uma das minhas preferidas de sempre (embora isto não importe muito para o caso) e a versão no final do filme com o próprio Clint Eastwood a cantá-la é a cereja no topo do bolo de uma forma épica! Transpira melancolia e prostração e é exactamente esse, o estado em que Walt Kowalski se encontra. Após a morte da mulher, este veterano da guerra contra a Coreia está sozinho. Humanamente sozinho, uma vez que tem a companhia da sua cadela Daisy. Esta personagem, incrivelmente vestida por Clint Eastwood (que também é produtor do filme) é um “cão” ferido por traumas de guerra, pelos preconceitos sociais, pela falta de afecto e sobretudo pela solidão. É incapaz de ser afável embora tenha, dissimulado, um sentimento de justiça muito apurado.
Não creio que valha muito a pena fazer um resumo do filme, pois esta personagem vale por si. Walt é um homem pragmático, gosta de estar no alpendre a beber a sua cerveja e por influências militares, gosta de rotinas, de estabelecer relações sempre com as mesmas pessoas (o barbeiro, o padre) e é extremamente avesso à mudança e à multiculturalidade, especialmente no que diz respeito à cultura asiática.
A grande trama do filme passa pela forçada aproximação a essa mesma cultura graças aos seus novos vizinhos que são hmong e principalmente à personagem que é impossível dissociar de Walt, Thao. É graças a este jovem adolescente afável, mas em risco devido às dificuldades económicas e pressões sociais que é sujeito, que o velho Walt vai baixar o muro invisível que criou nos limites do seu jardim.
Guarda na sua garagem a sua maior relíquia um Gran Torino de ’72 um carro que estima de forma quase paternal, (talvez importe referir que o seu único filho está longe com a sua “repugnante e fútil família” e deseja que Walt vá para um centro de apoio a idosos) esse Gran Torino é o seu companheiro de viagem e a grande herança que a família de Walt tanto ambiciona, principalmente após saberem da doença assoladora que Walt tenta ignorar.
Após criar amizade com Thao e a sua família, até mesmo com a tia resmungona e execrável, sua “companheira de alpendre”, percebendo os seus costumes e dificuldades, vê-se envolvido numa situação de vingança por parte de grupos de bairros rivais da família hmong. E dá-se o climax do filme. E também da personagem. Walt é herói, não de guerra, mas o herói contra o racismo, etnocentrismo e violência. É herói principalmente para aquela família, para Thao que o ensina a acreditar nas suas convicções e a escolher fazer o que é certo, mesmo sabendo que corre riscos com isso.
A forma como Walt se vinga do gang, sem sangue, (ou melhor) somente o dele e um isqueiro foi surpreendente. Uma lição tal, que faz este filme ser diferente. Walt morre, mas vive na nossa memória como um homem que apesar de tarde, percebeu que o racismo e a xenofobia é uma idiotice dos acomodados e dos incultos.
O filme termina com um pequeno doce de boca, aquando a leitura do testamento, Thao é o verdadeiro descendente de Walt ao herdar, ainda que com restrições estéticas, o Gran Torino. O sentimento paternal existente naquele carro foi na verdade transportado para o vizinho hmong mostrando que nem sempre os laços de sangue são os mais fortes.
E pensar que Walt lutou na guerra contra a Coreia….
What goes arround comes arround.
Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.
